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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Boas-noites

Boas-noites
Miriabilis jalapa


Chegava o Verão e elas apareciam naquele canto, sempre o mesmo.

Nos fins de tarde, desses dias quentes, depois de uma dose intensa de mar e já com a pele enrugada e os lábios roxos, regressávamos em bando, pela rua acima. Chegados a casa, tirávamos o sal do corpo e comíamos um lanche farto. Findo estas actividades do regresso, lá corria eu, novamente, rua abaixo, até casa do meu avô, onde os meus primos, vindos da Terceira para um Verão no Pico, me esperavam.

As crianças não têm propriamente rituais, há brincadeiras que se fazem, umas mais do que as outras. Com o tempo e com a idade fazemos delas rituais, porque quando as repetimos elas começam a nos ligar a algo precioso... à nossa eterna criança interior.

O ritual hoje, brincadeira de ontem, é feito de boas-noites.


Estavam ali, junto ao muro branco que separava o terreno do meu avô da estrada. E aí, nesse enclave, desabrochavam as boas-noites: brancas, amarelas, cor-de-rosa, matizadas. Flores com os seus pedúnculos em bolinhas, das quais saía um fio quase invisível, que tínhamos de puxar com toda a cautela do mundo para não se romper, como se disso depende-se a vida ou a morte. Após a tarefa cumprida, surgiam, quase por magia, brincos coloridos que prendíamos nas orelhas e fazíamos balouçar com as nossas cabeças alegres e cheias de gargalhadas. Outras eram encaixadas para criar coroas, colares e pulseiras que nos enfeitavam como arco-íris.

 Eram tardes felizes, onde a brincadeira ia terminando à medida que a noite caía e as boas-noites se despediam fechando as suas flores.

Hoje passeava pela Quinta e aqui as boas-noites, como que por um fio de magia, crescem para me ligar a esse passado feliz. Sorri para elas e comecei a colhê-las, primeiro para uns brincos, depois para um colar e mais à frente para uma coroa de flores. Sorri e gargalhei despreocupada, era criança novamente, sentia-me uma princesa no meu reino encantado.
A boas-noites, Miriabilis jalapa, é uma planta introduzida nos Açores para fins ornamentais. Como tantas outras escaparam às mãos dos jardineiros e crescem hoje por aí. É mais fácil de encontrá-las junto às casas e em restos de entulhos, onde a sua ligação ao humano ainda é profunda.

É a Planta da minha terra de hoje, só porque tropecei nela e apeteceu-me ser criança outra vez.

Espécie
Miriabilis jalapa
Nome Comum
Boas-noites
Família
Nyctaginaceae
Naturalidade
Indígena – Endémica dos Açores
Distribuição Açores
Flores
Corvo
Faial
Pico
S.  Jorge
Graciosa
S. Miguel
St. Maria
Colhida em:
Quinta da Vinagreira

domingo, 23 de setembro de 2012

Uva-da-Serra

Uva-da-serra, Romania
Vaccinium cylindraceum J.E. Sm.

São poucos aqueles que sabem que nestas ilhas atlânticas existem mirtilos. Entre nós, são conhecidos por uva-da-serra ou, mais popularmente, romania. Este é um arbusto especial. Tendo cá chegado há milhares de anos, a sua história nestas terras, sujeito às intempéries e aos  dias de bom tempo açorianos, tornou-o único. É isto a que se chama uma espécie endémica: quando por um processo evolutivo, uma planta, ou animal se transforma numa nova espécie, diferente de todos os seus parentes mais próximos.

Ocorre acima dos 300 metros, associada a formações da laurissilva açoriana (sub-bosque), florestas cedro, matos macaronésicos e turfeiras florestadas.

Gosto particularmente da uva-da-serra, não só porque dá uns frutos maravilhosos, que todos os anos colho e transformo em compotas e geleias, mas também porque é uma planta verdadeiramente bonita e, claro, é açorianíssima.
 


Trata-se de uma das poucas plantas semi-caducas da flora açoriana. Quando o Outono se aproxima as suas folhas começam avermelhar, criando um matizado de cores magnífico, que se destaca no permanente verde da nossa floresta natural. Na Primavera enche-se de flores, com cachos cor-de-rosa a pender dos seus ramos e, claro, no fim do Verão cobre-se de frutos azuis-escuros.
 
Colhi-os há poucos dias, aquando da minha expedição de apanha de amoras e uvas-da-serra. Os arbustos estavam carregados de fruto e com algumas folhas já a mudar de cor. Eu sou suspeita quanto ao sentido estético das plantas, mas a minha amiga Eugénia virou-se para mim e disse: “São tão bonitos estes arbustos, gosto mesmo de os ver”. Por isso não sou só eu que gosto. Por vezes basta apenas um olhar mais atento para vermos nas plantas da nossa terra verdadeiros tesouros escondidos.

Ficha da espécie
Espécie
Vaccinium cylindraceum
Nome Comum
Uva-da-serra, Romania
Família
Ericaceae
Naturalidade
Indígena – Endémica dos Açores
Distribuição Açores
Flores
Corvo
Faial
Pico
S.  Jorge
Graciosa
S. Miguel
St. Maria
Colhida em:
Caldeira Guilherme Moniz
 

domingo, 2 de setembro de 2012

Plantas da minha terra – Beldroegas



Beldroega do meu canteiro de aromáticas



A beldroega (Portulaca oleracea) foi introduzida nos Açores. Apesar de muitas pessoas a considerarem uma erva daninha, outros conhecem-lhe o sabor e as propriedades mais que benéficas para a nossa alimentação. Para quem não sabe, esta despretensiosa planta é rica em Omega 3, esse ácido gordo tão importante para a saúde.

Se os açorianos não descobriram ainda as maravilhas culinárias das folhas de beldroega, há outros que há muito já o fizeram: os Alentejanos. Com ela fazem saladas e principalmente belas sopas. É de uma destas que no próximo post vos vou falar. A “Sopa de beldroegas com queijo de cabra”.
As sementes, aquelas minúsculas bolinhas pretas, que a maioria das pessoas se tenta desfazer por parecerem sujeira, são também comestíveis, ricas em ácidos gordos e proteínas. Há, inclusivé, quem as colha, por incrível que possa parecer, para serem utilizadas em pães, panquecas, etc...

Para uma recolectora como eu, apanhá-la pelos campos é uma boa alternativa. Contudo, fica aqui o aviso; para esta planta, como para outras, devemos ter o máximo cuidado na recolecção. Evitem sobretudo as bermas dos caminhos e escolham locais que vos pareçam improváveis para a aplicação de herbicidas. Infelizmente começam a rarear, e a recolecção, esta actividade que está nos nossos genes ancestrais, torna-se cada vez mais perigosa, com o uso generalizado e exagerado dos herbicidas... Um dia destes conto-vos uma história acerca disto...

Ficha da espécie

Espécie
Portulaca oleracea L.
Nome Comum
Beldroega
Família
Portulacaceae
Naturalidade
Introduzida
Distribuição Açores
Flores
Corvo
Faial
Pico
S.  Jorge
Graciosa
S. Miguel
St. Maria
Colhida em:
Quinta da Vinagreira – São Bartolomeu

sábado, 25 de agosto de 2012

Plantas da minha terra - Cabreola

Cabreolas, salsa-burra, cenoura-brava
Daucus carota


Flor de cabreola
 Para começar as crónicas das “Plantas da minha terra” teria de escolher uma planta especial.
A  Daucus carota é conhecida na minha família como cabreola.

Esta flor liga-me à minha avó materna, à avó Perpétua, que embora não tenha conhecido, o seu gosto pelas flores perpetuou-se pelo tempo. As cabreolas eram para ela, uma das suas flores favoritas, tal como para mim. Esta planta representa assim, uma espécie de linhagem feminina da família, que me liga às mulheres que me antecederam num fio que perco no tempo. Por ser tão especial e bonita foi ela que teve as honras de compor o meu bouquet de casamento e é ela que, no fim da Primavera e pelo Verão adiante, decora inúmeros arranjos de flores na Quinta da Vinagreira.


Avó Perpétua, a avó que gostava de flores
 Existem duas subespécies nos Açores: a maritimus e a azoricus. Confesso que não as sei destinguir, embora o lamente, uma vez que a azoricus é uma subespécie endémica dos Açores.
Estas crescem um pouco por todo lado, desde o nível do mar até quase aos 800 metros de altitude. Mas é nas zonas baixas das ilhas que as encontramos em maior abundância, desde os prados costeiros, às bermas dos caminhos, nos terrenos baldios, campos cultivo, pastagens, etc... É difícil não tropeçar em alguma, embora, claro, chame muito mais atenção na sua época de floração, entre Junho e Agosto.


Cabreolas num prado costeiro
Quanto aos usos por terras açorianas não sei de nenhum em particular, mas é provável que o haja. Por outras terras há quem as use de diferentes formas. Para fazer uma espécie de condimento das suas flores ou até café das suas raizes torradas. Como planta medicinal tem uma lista infindável de usos, desde ajudar na digestão, a purificar os rins e o figado, tónico úterino (desaconselhável a grávidas).  Mas, sem dúvida que para a tristeza e depressão um vaso de flores de cabreola é um dos melhores remédios.


Ficha da espécie
Espécie
Daucus carota sbsp azorica Franco
Nome Comum
Cabreola, Salsa-burra
Família
Apiaceae
Naturalidade
Indígena – subsp endémica
Distribuição Açores
Flores
Corvo
Faial
Pico
S.  Jorge
Graciosa
S. Miguel
St. Maria
Colhida em:
Quinta da Vinagreira – São Bartolomeu
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