quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um tesouro na Quinta da Vinagreira



 
- Espreita ali, espreita, espreita. Gritava o meu homem de cima do muro enquanto eu, no curral, tratava das galinhas e das cabras. Espalhei o milho soltando sonoros purPurpur Pur purpurPurpur Pur...
 
Assim que o milho acabou, corri para o outro lado do curral e espreitei para onde o meu homem apontava: um pequeno buraco da parede. Ali, vibrando à luz do sol, deste esplêndido dia de Outono, estava o nosso tesouro. Não uma mão cheia, mas oito ovos das minhas bonitas galinhas. Sorrimos triunfantes. Há quem queira encontrar a galinha dos ovos d’ouro, mas nós, simplórios como somos, queremos mesmo as galinhas dos ovos que se comem. Uma nova era começa na Quinta da Vinagreira.

Tal tesouro  merecia ser degustado na sua plenitude. Inaugurámos esta época de abundância com um pequeno-almoço de ovos escalfados, acompanhados com pão torrado barrado com manteiga de mostarda e pimenta. E... o laranja vivo da gema iluminou a nossa manhã...



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Reencontro com a Tanita Tikaram em noites solitárias


Os novos habitantes da Quinta, os livros, provocaram uma revolução de arrumação. Inevitavelmente fiz recontros e, também, algumas despedidas  com muitos dos objectos que se acumulam no fundo das gavetas nunca mexidas.

Os cds da casa, como tudo o resto, mereceram uma revisitação. Nestes dias a música foi sendo debitada por vozes e toadas perdidas no pó dos armários. Não nos apercebemos, mas no ritmo dos dias acabamos sempre por ouvir e voltar a ouvir as mesmas músicas, enquanto outras teimam em ficar esquecidas. Assim reencontrei a Tanita, apenas em parte. Estava lá a caixa, mas o cd esse tinha partido para parte incerta. A verdade é que me deu uma vontade imensa de deixar a sua voz melancólica e outonal ecoar por estas noites mais geladas da Quinta, onde me encontro só outra vez.

A vontade é assim, um pretexto para fazer acontecer. Pus-me à sua procura na internet e encontrei-a com algumas das minhas canções favoritas. Pedi-lhe uma nota e ela veio comigo até a este cantinho do mundo. 


Então, nesta noite solitária de Novembro, enquanto introduzo inquéritos intermináveis, deixo-me aquecer pela voz da Tanita Tikaram e uma caneca de chá de cidreira & alecrim.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Livros com Sabor

Livros, livros e mais livros. São pilhas deles que se espalham pela sala. Enquanto pintava o quarto a que chamamos, por aqui, de escritório, o meu homem desempacotava, com a felicidade de uma criança, os seus livros. Há para quem os livros sejam a sua própria casa, e assim é para ele.

Já montámos as prateleiras e findas as pinturas começaremos a arrumar os livros. Antes de tudo isso há que comer, e tantas folhas encadernadas inspiraram-me para uma lasanha de soja.

Descobri, num armário da cozinha, um frasco de soja granulada completamente esquecido. Havia já há muito que não cozinhava soja. No início da minha vida de cozinheira vegetariana abusava bastante deste ingrediente. Temos aquela obsessão pela proteína e parece que só a soja nos pode valer para substituir a carne. Com o tempo vamos tornando esta cozinha tão intuitiva como qualquer outra e o mundo dos ingredientes torna-se infinito. Quando damos por nós já nem pensamos na dita proteína e a soja perde-se no fundo dos armários.




















 
 

Assim, a soja, tal como os livros encaixotados à meses, viu finalmente a liberdade e saltou para a lasanha.

Ingredientes:

Recheio

Molho Branco

*  Folhas Lasanha

* 1 ½ Cháv. soja granulada

* ½ Pimentão picado

* 1 Cebola picada

* 2 Tomates maduros

* Tomatada( a gosto)

* 4 Dentes de alho

* 1 Folha de louro

* Paprica

* Vinho branco

* Molho soja (a gosto)

* Azeite

*  Azeite

* Farinha

* Leite

* Pimenta

* Sal

 

 

 

 

 

 

 

 Preparação:
 Tempera-se a soja de véspera com uma espécie de vinha d’alhos (alhos, sal, louro, paprica e vinho branco).
Refoga-se no azeite a cebola, o pimentão e o tomate. Depois adiciona-se a soja temperada e deixa-se refogar um pouco, acrescentado posteriormente o líquido do tempero. Acrescenta-sei um pouco de tomatada e molho de soja, deixando cozinhar por mais uns minutos.
Entretanto prepara-se o molho branco fritando ligeiramente a farinha no azeite, acrescentando depois lentamente o leite. No fim tempera-se com pimenta, sal e o molho do refogado de soja.
Por fim foi só montar às camadas, terminando com uma cobertura de queijo de São Jorge ralado e orégãos. E depois já sabem, é só comer...



 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Bialys and Patas

Hoje acordei e olhei pela janela, aliás como faço todos os dias. Em cima da casa da bomba da água, estava instalada parte da família canina: o Papotamo, a Truma e a Patas. Ali estavam, esperando pacientemente o momento em que eu espreitasse pela janela e desse os bons dias.
 
 

A Patas estava altivamente instalada em cima da Truma. Para além do quadro ser digno de registo, só por si, vocês não sabem o inédito do mesmo. Quando a Patas chegou cá a casa, a Truma não ficou nada bem-disposta. Encarou a sua vinda como uma grande ofensa e passou semanas amuada, fugindo para o seu canto. Claro está, a Patas não ligou nenhuma a este protesto e decidiu, ao entrar na Quinta, que a Truma seria a sua grande amiga. Podem ver quem levou a melhor nesta história.

E como é que a Patas instalada em cima da Truma me levou até aos bialys. Na verdade, não levou, mas as duas histórias marcaram o dia, e mereciam ser contadas.

Descobri a receita dos bialys no meu livro Artisan Bread. Aquelas rodelinhas de massa com recheio no meio cativaram-me e andava há um bom par de dias para experimentar. Ontem à noite preparei a massa, que guardei no frigorífico e hoje ao jantar, depois de um dia no quintal, dediquei-me a fazer uma sopa de couves, acompanhada com bialys quentinhos do forno.


Estes pãezinhos recheados são uma receita tradicional judia da Polónia. Actualmente, penso que é nos EUA que estes são mais consumidos. Trata-se de um pão ligeiramente adocicado, com uma ligeira depressão no centro, recheada com cebola refogada e sementes de papoila. Podem-se acrescentar outros recheios, mas este é o mais típico. Segui a tradição e também inovei um pouco, colocando em alguns bialys queijo de São Jorge e um pouco do meu molho de tomate italiano.... Hmmm marcharam quase todos, deixando-me numa depressão pós-jantar digna de registo.



Ingredientes:

Massa
3 Copos água morna
1 ½ Colher sopa de fermento padeiro
1 Colher sopa sal
1 ½ Colher sopa açúcar
6 Copos de farinha

Recheio

1 Cebola
2 Colheres de sobremesa de sementes de papoila
Sal
Pimenta

Preparação:
A massa faz-se seguindo o processo do pão em cinco minutos que já publiquei aqui no blog. Depois da massa pronta, fazem-se pequenas bolas do tamanho de um pêssego e achatam-se ligeiramente, deixando levedar por 30 minutos. Entretanto refoga-se a cebola, até ficar translúcida e tempera-se no fim com sal e pimenta a gosto e juntam-se as sementes de papoila. Passada a meia hora, faz-se uma pequena depressão no centro de cada bolinha e recheia-se com uma colher de sopa da cebolada (pode-se colocar outros recheios a gosto). O forno é aquecido previamente a 230º e leva-se os bialys a cozer durante 12 minutos. Este é o tempo que diz na receita, mas os meus cozeram durante 20 minutos. Não deve secar muito, mas a massa tem de ficar bem cozida. E depois já sabem, é só comer.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Bio-trocas por uma sopa de abóbora com alecrim




Feira da Bio-trocas (Gequesta). Forte de São Mateus no dia 14 de Outubro (Foto: Augusto Santos)

Acordei tarde e tinha duas horas para conseguir preparar o meu cesto para a feira da Bio-trocas, no forte da Gê-Questa. Nesse escasso período de tempo tinha de conseguir etiquetar os meus frascos com vinagreiras, aguarelas, cola branca e papel de jornal. Depois de uma correria de bricolagem, fui apanhar uns molhos de ervas aromáticas e recolher sementes de “nabo de todo ano”, para compor a cesta que me acompanhou até à feira.

Quando entrei no portão do forte de São Mateus, a feira biológica, que nos acompanhou durante vários meses aos fins de semanas, já lá não estava. Fugiu para o outro lado da ilha, para o recém-inaugurado “Mercado Biológico”. Em contrapartida, uma diversidade maior de gentes, conversas e produtos distribuía-se por pequenas bancas, onde se expunham preciosidades, trazidas de quintas, quintais e cozinhas. Encontrei couves, caiotas, batata-doce, abóboras, ervas aromáticas, curtumes, marmeladas, plantios de várias espécies, artesanato, requeijão, etc..... Enfim, um pouco de tudo, não esquecendo que na sua maioria eram produções biológicas de pequenos quintais que se encontram espalhados de forma anónima pela ilha. Estendi a minha manta, coloquei os meus parcos produtos e comecei a trocar. Toda gente se sentia feliz, circulávamos uns pelos outros, trocando palavras e produtos, deixando-nos aquecer pelo sol, pela conversa amena e pela leve sensação de que o destino, que se traçava nesse dia para mais quatro anos nos Açores, também se construía ali, como uma semente pequenina, pronta a querer vingar.


Feira da Bio-trocas (Gequesta). Forte de São Mateus no dia 14 de Outubro (Foto: Augusto Santos)
De volta a casa a cesta vinha cheia, mas agora com abóboras, caiotas, batatas-doces, uma plantinha de consolda e requeijão. Foi inspiração suficiente para o que seria o jantar desse Domingo. Sopa de abóbora e salsa com infusão de natas de soja com alecrim, e para acompanhar pão torrado com azeite, alho e requeijão....hmm


Esta sopa, fácil e rápida, é uma delícia. Boa para surpreender os vossos amigos com um sabor doce e aromático. Claro que esta também é uma boa opção para nos mimarmos, a nós e à família, principalmente agora que as noites já vão arrefecendo e um caldo quente é sempre um bálsamo para a alma.

Ingredientes:
*  ½  Abóbora pequena
* 3 Batatas médias (pode substituir por mais caiota ou courgete)
* 1 Caiota
* 1 Cebola média
* 1 Pacote de natas de soja
* 1 Raminho de alecrim
* 1 Raminho de salsa
* Azeite
* Sal
*Pimenta-preta
Preparação:
Colocar azeite no fundo do tacho e saltear todos os legumes, começando com a cebola que, depois de ficar translúcida, se junta aos restantes legumes. Acrescentar água e deixar cozer. Reduzir a puré. Temperar com sal e pimenta juntando a salsa picada, deixando ferver mais um pouco. Num tacho pequeno, à parte, aquecer as natas com o alecrim. No final coar as natas para a sopa e depois é só servir e degustar.



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