terça-feira, 18 de setembro de 2012

É tempo de amoras e uvas-da-serra


É Setembro, e a ansiedade começa a crescer-me no corpo. Este é um tipo de excitação que se vai acumulando na alma, como uma maré a encher, prestes a transbordar. É tempo de subir na ilha e ir às amoras e às uvas-da-serra (mirtilos açorianos).

Apesar do tempo inconstante, de aguaceiros imprevistos, lanço-me a mais uma odisseia de recolecção. Telefono a umas quantas amigas que gostam de me acompanhar nesta aventura anual, e com umas confirmações e umas desistências vou formando o grupo das amoras deste ano.

Era Sábado, o tempo estava terrível e inconstante, mas pusemo-nos a caminho. De sacos, impermeáveis, botas de água, preparadas para o que desse e viesse. Chovia e chovia muito. Fomos descendo em direcção aos Biscoitos, mas aí onde a chuva era pouca, as amoras também o eram e regressámos derrotadas e de sacos quase vazios.
Domingo sentei-me a separar a escassa colheita. Lá fora, através da porta, vislumbrava um raio de sol e a ideia de regressar ao topo da ilha em busca desses frutos negros da época ia assumindo novamente grandes proporções, quando o telefone tocou:
- Cecília, já viste o tempo?

- Sim... Antes de atender já sabia que eras tu, para me propores uma nova tentativa às amoras.
- Agora andas com premonições.
- Ahahaha não é preciso tanto, basta saber que com o bom tempo o grupo das amoras está pronto para a recolha.
 
 
E assim foi, equipadas, novamente, lá fomos em direcção ao “nosso jardim de frutos silvestres”. As amoras lá estavam, embora menos este ano e mais combalidas da chuva, mas uvas-da-serra, essas, estavam no seu máximo. Sem dúvida que este ano é “o ano” dos mirtilos açorianos.

De regresso a casa, um pouco molhada, porque a chuva brindou-nos repetidas vezes, esperam-me os tachos, os açúcares e os pontos, espera-me a alquimia do fogão para transformar os frutos negros em compotas doces para o Inverno frio que se aproxima.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Patas



 Pernalta, orelhas excessivamente grandes, olhos castanho-azeitona, salpicos de manchas castanhas por todo corpo. Simpática, bem disposta, com alguma traquinice. Dependente de companhia.

Esta é a Patas. O membro mais recente da Quinta da Vinagreira.
Já haviam 3 canídeos cá em casa e embora o ditado diga: quem tem duas tem três, neste caso será quem tem três tem quatro.

Chegou ontem à noite, depois de uma longa viagem de barco. Os membros da família da quinta, já residentes, estranharam-na. Cada um à sua maneira expressou a sua desconfiança. Uns rosnaram, outros amuaram, outros bufaram, outros olharam de longe, mas a Patas veio para ficar e o seu andar desengonçado e jeito humilde já conquistou os humanos, e não tarda nada a conquistar os outros.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Cores no cinzento do céu



Chove. O dia está de um cinzento pouco convidativo. Mas se o tempo lá fora é escuro e macambúzio, aqui, dentro de casa, decidi contrariar esta tonalidade. Hoje vou encher-me de cor. Vou pintar paredes.

 
 
Descobri, há algum tempo atrás, uma receita de tintas naturais, feitas com terra. E, claro, fiquei louca para experimentar. Comecei por seguir cegamente a receita mas, tal como na cozinha, rapidamente aldrabei tudo. Para além da cola branca, terra e água, juntei pigmentos de cal e, ainda assim, não estando satisfeita, peguei nas minhas aguarelas e foi um tal criar cores. Fiquei feliz, muito feliz. Sempre que me consigo libertar de coisas pré-feitas e sou tocada pelo dom da criação, encho-me de uma alegria infantil, e digo para o meu homem:

- Tive uma ideia genial.


Invariavelmente ele leva as mãos à cabeça. Mesmo assim continuo com a minha felicidade original, totalmente indiferente à descrença do mundo na minha alma de artista.
Já pintei as paredes da cozinha de um amarelo-ocre, o frontispício das bancadas de um vermelho-tijolo, os degraus da casa de banho e do escritório de um amarelo-alaranjado e castanho-tijolo. Hoje vou para a casa de banho, onde um verde que não sei definir e muito menos explicar como o criei, vai para as paredes. Perguntei ao meu homem:


_ Queres a casa de banho azul ou verde?

_ Azul.
_ Hmmmm...acho que vou pintar de verde, fica melhor com a cor do chão...

Como vêem, é natural o seu entusiasmo pouco efusivo com as minhas ideias geniais... É que, por mais intenções participativas que possa ter, acabo literalmente por fazer o que me apetece.


e quiserem ver a receita desta tinta fabulosa
, siga por aqui e deixem-se levar.


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sopa de beldroegas

 

Como não poderia deixar de ser foi no Alentejo que primeiro ouvi falar desta sopa. Esta nasceu ali, onde os alentejanos tão sabiamente sabem combinar umas ervas do campo, com uns pedaços de pão, ervas aromáticas e já está, um prato simples de encher a barriga e lamber os beiços. Só mais tarde, também no Alentejo, na cidade de Évora, é que provei a primeira versão. No entanto, não foi a sopa de beldroegas “original”, porque a época não era de beldroegas, e assim acabei comendo com espinafres.
Na Quinta da Vinagreira, muito longe do seu berço natal, é que comi pela primeira vez “a verdadeira” sopa de beldroegas, feita pelas mãos do meu homem. Nele residem uns quantos genes alentejanos, o que concede ao prato maior autenticidade.
As beldroegas foram apanhadas na quinta e nas redondezas. As batatas, produção cá de casa, e os queijos de cabra, planeados para ser da quinta, comprei-os no supermercado. Isto porque a Francisca, infelizmente, não nos saiu lá uma grande cabra leiteira.
Depois de reunídos todos os ingredientes, foi só passar para a panela e dar andamento à receita.
 
Sopa beldroegas (4 pessoas)

. 2 molhos de beldroegas

. 1 kg de batatas (pusemos menos)


. 4 cabeças de alho (a meu ver pode substituir por alguns dentes)


. 2 queijos brancos de cabra (usei Queijo de Palhais)

. 4 ovos

. 1,5 de azeite

. Sal


Arranjam-se as beldroegas e escaldam-se. Num tacho fritam-se ligeiramente os alhos e depois juntam-se as beldroegas, refogando ligeiramente. Deita-se água suficiente para a sopa, o queijo, partido em quartos, deixando ferver. Depois juntam-se as batatas cortadas às rodelas grossas. Quando estiverem quase cozidas escalfam-se os ovos. O sal deve ser rectificado, mas os queijos já contribuem bastante para o sal deste prato, pelo que se recomenda alguma parcimónia.


Serve-se esta sopa com pão (de preferência alentejano) às fatias. Separam-se as beldroegas, as batatas, os ovos, o queijo e os alhos numa travessa e serve-se o caldo para regar as sopas. Eu servi tudo junto, e quanto ao  queijo, nem vê-lo, derreteu-se completamente, mas o sabor esse ficou lá, inconfunível.
Espero que aproveitem a época das beldroegas e experimentem esta sopa. Bom Setembro a todos.


domingo, 2 de setembro de 2012

Plantas da minha terra – Beldroegas



Beldroega do meu canteiro de aromáticas



A beldroega (Portulaca oleracea) foi introduzida nos Açores. Apesar de muitas pessoas a considerarem uma erva daninha, outros conhecem-lhe o sabor e as propriedades mais que benéficas para a nossa alimentação. Para quem não sabe, esta despretensiosa planta é rica em Omega 3, esse ácido gordo tão importante para a saúde.

Se os açorianos não descobriram ainda as maravilhas culinárias das folhas de beldroega, há outros que há muito já o fizeram: os Alentejanos. Com ela fazem saladas e principalmente belas sopas. É de uma destas que no próximo post vos vou falar. A “Sopa de beldroegas com queijo de cabra”.
As sementes, aquelas minúsculas bolinhas pretas, que a maioria das pessoas se tenta desfazer por parecerem sujeira, são também comestíveis, ricas em ácidos gordos e proteínas. Há, inclusivé, quem as colha, por incrível que possa parecer, para serem utilizadas em pães, panquecas, etc...

Para uma recolectora como eu, apanhá-la pelos campos é uma boa alternativa. Contudo, fica aqui o aviso; para esta planta, como para outras, devemos ter o máximo cuidado na recolecção. Evitem sobretudo as bermas dos caminhos e escolham locais que vos pareçam improváveis para a aplicação de herbicidas. Infelizmente começam a rarear, e a recolecção, esta actividade que está nos nossos genes ancestrais, torna-se cada vez mais perigosa, com o uso generalizado e exagerado dos herbicidas... Um dia destes conto-vos uma história acerca disto...

Ficha da espécie

Espécie
Portulaca oleracea L.
Nome Comum
Beldroega
Família
Portulacaceae
Naturalidade
Introduzida
Distribuição Açores
Flores
Corvo
Faial
Pico
S.  Jorge
Graciosa
S. Miguel
St. Maria
Colhida em:
Quinta da Vinagreira – São Bartolomeu

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