É Setembro, e a ansiedade começa a crescer-me no corpo. Este é um tipo de excitação que se vai acumulando na alma, como uma maré a encher, prestes a transbordar. É tempo de subir na ilha e ir às amoras e às uvas-da-serra (mirtilos açorianos).
Apesar do tempo inconstante, de aguaceiros imprevistos, lanço-me a mais uma odisseia de recolecção. Telefono a umas quantas amigas que gostam de me acompanhar nesta aventura anual, e com umas confirmações e umas desistências vou formando o grupo das amoras deste ano.
Era Sábado, o tempo estava terrível e inconstante, mas pusemo-nos a caminho. De sacos, impermeáveis, botas de água, preparadas para o que desse e viesse. Chovia e chovia muito. Fomos descendo em direcção aos Biscoitos, mas aí onde a chuva era pouca, as amoras também o eram e regressámos derrotadas e de sacos quase vazios.
Domingo sentei-me a separar a escassa colheita. Lá fora, através da porta, vislumbrava um raio de sol e a ideia de regressar ao topo da ilha em busca desses frutos negros da época ia assumindo novamente grandes proporções, quando o telefone tocou:
- Cecília, já viste o tempo?
- Sim... Antes de atender já sabia que eras tu, para me propores uma nova tentativa
às amoras.
- Agora andas com premonições.
- Agora andas com premonições.
- Ahahaha não é preciso tanto, basta saber que com o bom tempo o grupo das
amoras está pronto para a recolha.
E assim foi, equipadas, novamente, lá fomos em direcção ao “nosso jardim de
frutos silvestres”. As amoras lá estavam, embora menos este ano e mais
combalidas da chuva, mas uvas-da-serra, essas, estavam no seu máximo. Sem
dúvida que este ano é “o ano” dos mirtilos açorianos.
De regresso a casa, um pouco molhada, porque a chuva brindou-nos repetidas vezes, esperam-me os tachos, os açúcares e os pontos, espera-me a alquimia do fogão para transformar os frutos negros em compotas doces para o Inverno frio que se aproxima.




